Mulheres que Correm com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés

Hoje trago aqui um livro sobre o qual desejo escrever há muito. É mais um dos livros que me acompanha em várias fases da vida. Um livro que tiro da estante de vez em quando e que me prende sempre na leitura. Um livro que me ensina sempre algo novo, mesmo depois de já o ter lido e relido.

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Peço para a manterem uma mente aberta quando forem ler este livro, principalmente se têm pouca ligação com o tema da Mulher Selvagem. Começo por dizer que não sinto, como já ouvi alguém afirmar, que a autora nos esteja a dizer como viver as nossas vidas, a impor alguma coisa a todas as mulheres através da sua escrita. Esta é uma das razões pelas quais vos peço para manterem a mente aberta. Porque quando eu pego num livro destes, espero que ele me transforme de alguma maneira, e aquilo que sinto é que a autora nos dá efectivamente ferramentas para trabalhamos connosco, seja este trabalho consciente ou não, e isso pode implicar mudanças. As mudanças, por sua vez, por vezes envolvem algo que remexe no nosso interior, em feridas que se calhar nem sabíamos que tínhamos ou algo dentro de nós que não conseguimos ainda encarar até ao momento e está guardado a sete chaves, o que pode não ser agradável se não estamos preparadas. Raramente o caminho para o crescimento é fácil, certo?!

Vejo as histórias como algo que nos faz reflectir (com imagens que nos são mais ou menos conhecidas, representações que todas conseguimos compreender), e as explicações da autora como uma ajuda para chegarmos mais fundo nessa introspecção, e não como uma mensagem de “isto é a verdade, e tens de ser assim, não importa em que fase da vida estejas”. Seja como for, dou um conselho que algumas de vocês já sabem que eu cumpro: se não concordam, não rejeitem, não coloquem a leitura de parte… deixem-se estar com essa informação integrada em vós de alguma forma e voltem ao livro (ou a esse capítulo) mais tarde… pode ser que as coisas façam outro sentido.

Este livro foi-me sugerido por uma irmã de coração, uma das maiores Luzinhas na minha vida, a minha querida Sofia. Não me lembro do que é que estávamos a conversar. Foi a última vez que vi esta minha irmã pessoalmente, lembro-me disso. Sei que nesses dias em que ela esteve em minha casa, e entre meditações e momentos sempre especiais que passamos, conversámos sobre muita coisa que partilhamos com poucas pessoas. Ambas tínhamos estado afastadas uns meses (não por querermos, simplesmente às vezes acontece), e depois ela foi para Moçambique durante cerca de um ano, seguindo o chamamento do seu coração (coração em parte Madeirense, em parte Africano, mas sempre do Mundo). Neste reencontro de uma semana, como podem imaginar, as partilhas foram imensas: de alegria, tristeza, desespero, obstáculos encontrados e lições aprendidas. Sim, sinto muito Amor por esta Mulher Selvagem em crescimento que entrou na minha vida graças ao curso de Enfermagem, cuja ligação se iniciou com um trabalho de Sociologia sobre o Budismo, e que se fortaleceu através de uma amizade tão pura e tão familiar, com um sentimento de pertença tão forte naquele ninho, que é impossível não a sentir comigo todos os dias, mesmo que a distância seja longa, mesmo que as palavras trocadas sejam curtas. É daquelas pessoas, como tenho outras, que estão sempre comigo, mesmo quando não penso nelas de forma objectiva.

Assim que ela me disse o título, já não ouvi a parte do “vais adorar, é perfeito para ti” com clareza; algo despertou em mim. Imaginem um lobo, com as suas orelhas espetadas, que ouve qualquer coisa que não sabe bem o que é, mas que desperta o seu interesse; as orelhas mexem à procura de mais pistas, de mais sinais, o lobo fica alerta, à procura de mais informações. Foi mais ou menos isso que senti. Tinha de o ler.

Este livro conta-nos as histórias que conhecemos da nossa infância. Utiliza os contos de fadas e do folclore que são contados há anos e anos, atravessando gerações, e que depois a autora explica: os símbolos, os arquétipos, a psicologia. Por vezes estas explicações são longas, mas para mim foram necessárias, visto que este livro foi o primeiro contacto mais profundo que tive com o tema da Mulher Selvagem e do Sagrado Feminino.

Lemos sobre a natureza selvagem da mulher, que por vezes é esquecida (e foi desvalorizada por uma sociedade patriarcal durante muitos anos, apesar de eu sentir que isso agora está a mudar). A Introdução do livro compara a mulher ao lobo, e eu acho-a simplesmente deliciosa. Sempre fui fascinada por estes animais, apesar de todas as conotações negativas (como o lobo mau, o lobo em pele de cordeiro, e outros exemplos que não me ocorrem agora). Li bastantes coisas sobre estes magníficos seres, tanto sobre o lobo “real” como sobre os seus significados a nível espiritual e em diferentes culturas, e esta introdução veio fortalecer ainda mais a minha paixão. Quando terminei a introdução, já estava completamente agarrada ao livro e desejando saber o que mais iria (re)aprender.

“Lobos e mulheres são seres relacionais por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e energia. São fortemente intuitivos, profundamente preocupados com as crias, com os companheiros e com a família. São peritos em adaptarem-se a circunstâncias de mutação constante; são ferozmente leais e de uma coragem extrema” – excerto retirado da página 14, edição de 2016.

Está a ser difícil para mim falar deste livro sem vos mostrar 1001 citações e exemplos para reforçar todas as minhas ideias, para mostrar a minha experiência pessoal com as histórias, para acender o vosso interesse. Gostava que este livro chegasse a todas as mulheres que se sentem confinadas, não propriamente de corpo, mas de mente e de alma. Este livro ajudou-me a reconectar-me comigo e a perceber o que é para mim viver de forma mais autêntica. Ainda o faz. Costumo ler umas passagens de vez em quando, mas com a preparação deste post decidi que vou lê-lo pela terceira vez na íntegra.

Apesar de me ter dirigido às mulheres que me seguem ao longo do post, acredito que é um livro que deve ser lido não só por mulheres que procurem compreender mais acerca de si, mas também por homem que queiram compreendê-las.

Osso a osso, fio de cabelo a fio de cabelo, a Mulher Selvagem regressa. Através de sonhos nocturnos, através de acontecimentos pouco perceptíveis e pouco nítidos conscientemente, a Mulher Selvagem regressa. Renasce através da história – excerto retidado da página 38, edição de 2016.

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Imagem daqui

Mulheres, procurem a Mulher Selvagem dentro de vocês e vamos todas juntas uivar à Lua 🙂

~ Om Shanti

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