Dismenorreia, Perspectiva Ayurvédica

Hoje trago um tema muito pedido por algumas de vocês, e que pode ser amigo das mulheres que sofrem deste problema: dismenorreia (que na Ayurveda se denomina Kashtartava).

É importante relembrar o que já referi antes: estes posts são informativos, resultado dos meus estudos e pesquisas. Podem ser dicas úteis para irmos aprendendo a sentir o nosso corpo e o que nos faz melhor ou pior, e que podem ajudar-nos a ter maior conforto. Não substituem a consulta de um médico, terapeuta ou outro profissional adequado, principalmente em situações em que existem problemas de saúde. Só eles podem aconselhar tratamentos mais específicos para a nossa situação actual através de uma observação mais específica. Mesmo se procuram tratamentos mais naturais, existem profissionais que vos podem ajudar, e para isso é importante que se encontrem pessoalmente, que conheçam a vossa história, os vossos problemas de saúde e afins. Sim, já experimentei algumas das coisas que aqui falo e que resultam comigo, mas o que é melhor para mim pode não ser o mais adequado para vocês.

Visão Ayurvédica

Para a Ayurveda, como escrevi aqui, a menstruação não é um problema, é uma oportunidade: uma oportunidade para purificar o corpo.

Durante a menstruação, muitas mulheres sofrem de dismenorreia, que se caracteriza por dor intensa na região pélvica, provocada pelas cólicas menstruais. Estas dores são resultado de contracções que ocorrem no útero durante a menstruação e que podem ter início alguns dias antes do período aparecer. Em muitas situações, a acompanhar estas dores a mulher apresenta também dor de cabeça, náuseas, vómitos, lombalgia, distúrbios intestinais e alterações de humor.

Imagem daqui

A dismenorreia pode ser classificada como primária ou secundária.

Primária: está relacionada com a produção excessiva de prostaglandinas, levando a contracções fortes do músculo uterino, vasoconstrição e diminuição da oxigenação local.  As prostaglandinas fazem com que os músculos da parede do útero se contraiam (de forma a libertar o endométrio que será expulso com a menstruação), e quando produzidas acima dos níveis fisiológicos dão a sensação de cólicas muito dolorosas.

Secundária: está relacionada com alterações do sistema reprodutor, como a endometriose, a doença inflamatória pélvica, quistos nos ovários e miomas.

Em relação aos Doshas

As dores menstruais podem interferir verdadeiramente com a vida diária normal de uma mulher. Eu lembro-me que quando era adolescente tinha muitas dores, ao ponto de não conseguir fazer nada a não ser estar no sofá com o saco de água quente.

Muito sucintamente: a dismenorreia, na perspectiva da Medicina Ayurvédica, pode ocorrer devido a um desequilíbrio Vata (em que existe o estreitamento dos vasos sanguíneos e do cérvix, dificultando a eliminação do endométrio), Pitta (alterações que levam à formação de endometriomas – lesões localizadas da endometriose) ou Kapha (um desequilíbrio que leva à formação de miomas uterinos).

Importa relembrar que não interessa o nosso dosha habitual; apesar da nossa constituição torna-nos mais propensas a determinadas manifestações/sintomas, não é garantido que seja assim sempre. Ou seja, como exemplo, não é por sermos maioritariamente Vata que não vamos apresentar desequilíbrio e sintomas Pitta ou Kapha. Acho que isto é importante porque se souberem o vosso dosha actual podem pensar que terão as alterações referentes a esse dosha e não aos outros, mas isso não é verdade. Depende da forma como eles se manifestam no organismo e por isso uma mulher pode ser maioritariamente Vata e apresentar sintomas Vata em outras situações, mas nesta pode apresentar sintomas referentes a um dos outros doshas. Isto é válido para tudo, e não só para a dismenorreia.

Nota: se chegaram agora ao blog, podem ler aqui um resumo do que são os Doshas e a importância deles na Medicina Ayurvédica.

Sintomas

Fica uma pequena lista de alguns sintomas associados a cada dosha, que são idênticos tanto para a tensão pré-menstrual, como para a fase menstrual:

Vata: obstipação, inchaço, dor lombar, cólicas severas, insónias, palpitações, ansiedade, medo, dificuldade em concentrar-se. A menstruação é escassa, mas com bastantes coágulos.

Pitta: rashs cutâneos, urticária, infecções na uretra ou na bexiga, sensação de ardor ao urinar. A mulher pode apresentar acne facial, cefaleias, mamilos mais sensíveis, náuseas, vómitos, diarreia.

Kapha: existe uma dor incómoda, forte. Por norma há sensação de aumento peso, associada à acumulação de líquidos e inchaço, notando-se muito ao nível da face e dos tornozelos. A mulher tem tendência a sentir-se deprimida, com mais vontade de comer doces e ser deixada no seu canto.

As dicas que aqui apresento são generalizada aos três doshas. Aquelas que encontrei direccionadas a cada dosha num dos livros do Dr. Vasant Lad são ervas muito comuns na Índia, mas pouco comuns por cá, e por isso preferi centrar-me naqueles cuidados mais generalizados e que são mais fáceis para nós concretizarmos.

Dicas da Ayurveda

Massagem com óleo de sésamo: Este óleo é utilizado tradicionalmente na massagem Ayurvédica, incluindo na auto-massagem. Tem propriedades anti-oxidantes e anti-inflamatórias, e pode ser utilizado para massajar o abdómen inferior durante a menstruação para alívio dos sintomas.

Bebida de gel de Aloe Vera: Durante a semana que antecede o início do período, tomar uma colher de sopa desta bebida três vezes por dia. Isto ajudará em qualquer tipo de dor e desconforto menstrual.

Calor: Aplicar calor na região abdominal inferior é um truque que conheço há muitos anos, e gosto muito do conforto de um saco de água quente. A Ayurveda concorda, e fala em duches quentes para aliviar a dor e proporcionar relaxamento, mas também em emplastros quentes feitos com pano e água quente.

Exercício: Algo que ouvimos dizer que é bom, mas é daquelas coisas que não apetece nada, nada, nada nestas alturas. Existem posturas de yoga óptimas para o alívio da dor durante a menstruação, e a Ayurveda aposta muito nelas. Peçam aos vossos professores para vos ajudarem.

Chá de gengibre e pimenta preta: um chá muito utilizado nestes casos na Ayurveda é de gengibre com pimenta, ao qual se pode adicionar um pouco de açúcar ou adoçante a gosto, mas evitar o leite. O gengibre é óptimo na redução das dores menstruais, e a pimenta preta é um anti-inflamatório natural. Na TPM este chá ajuda a diminuir a sensação de fadiga que algumas mulheres sentem nessa fase do ciclo.

Alimentação: outra das dicas que a Ayurveda nos dá é uma alimentação com especiarias como gengibre, cardamomo, açafrão, cominho, canela, coentros. O fogo digestivo, sobre o qual falámos aqui, trabalha para a limpeza do organismo, o que inclui a menstruação. Ter uma alimentação que se adequa ao nosso dosha durante todo o mês é também muito importante para que a menstruação seja menos dolorosa, porque os desequilíbrios que a provocam também serão menores.

Feno-grego: O feno-grego é muito bom para o metabolismo, rins e fígado, e também um bom aliado durante a menstruação. Aconselham a deixar as sementes de feno-grego em água durante 12 horas e depois beber essa preparação, para aliviar as dores menstruais.

Chá de sementes de cominho: este chá tem efeitos relaxantes e anti-espasmódicos, bem como propriedades anti-inflamatórias, tornando-o uma excelente opção para diminuir os sintomas das cólicas menstruais.

Meditação: ajuda a relaxar a mente, e o corpo sente-se melhor. Fazer da meditação uma prática diária ajuda no alívio das dores. Sim, pode não ser fácil quando temos muitas dores, mas é mais uma dica que se pode utilizar para proporcionar algum conforto.

Massagem com óleo de rícino e óleo essencial de lavanda: Utilizar cerca de 60 ml óleo de rícino misturado com 4 a 8 gotas de óleo essencial de lavanda para massajar a região abdominal inferior quando as cólicas se fizerem sentir. Após esta massagem, aconselham a tomar um banho quente ou aplicar calor no local, com, por exemplo, um saco de água quente ou um emplastro; isto irá potenciar os efeitos da massagem, proporcionando a dilatação dos vasos sanguíneos, o que ajuda no movimentos dos fluídos menstruais. O óleo de rícino é anti-inflamatório e ajuda a relaxar a zona pélvica; a lavanda é calmante tanto para o sistema nervoso como para o sistema reprodutor.

Chá herbal: Chá de novoleiro (anti-espasmódico, ajudando a diminuir as cãibras e sensação de cólica), canela (para aquecer o sistema reprodutor) e raiz de valeriana (para acalmar o sistema nervoso). Nunca experimentei, mas dizem que tem um sabor que não agrada a todos, mas que é muito bom para ajudar a ficar mais confortável.

Espero que este post tenha ajudado a terem uma noção do que é a dismenorreia na perspectiva Ayurvédica, e que as dicas apresentadas sejam úteis e vos ajudem um pouco. Se tiverem dúvidas podem mandar e-mail ou deixar nos comentários. Farei os possíveis por responder, o mais depressa que conseguir.

Desejo um excelente fim-de-semana 🙂

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