Apenas Mais um Olhar sobre o Mundo

Este post teve colaboração da minha irmã d’alma Vanessa. É uma reflexão depois de várias conversas que tivemos sobre este assunto, e que aqui coloco em texto, reflectindo os nossos pensamentos, e também uma história. É um post que andamos a pensar desde Agosto, e que toca vários aspectos do ser humano, e podia tocar tantos outros, mas que vão dar ao mesmo: respeito.

Muitas vezes quando olho para o Mundo vejo discriminação, comportamentos que enaltecem a desigualdade, crítica baseada em rótulos, e que muitas vezes leva a violência, seja ela física ou verbal. A utilização destes rótulos só serve para nos afastar uns dos outros.

Há uns anos chegou-me um vídeo ao feed do Facebook, em que um grupo de adolescentes humilhavam outro. Vários contra um, com agressividade verbal e física. Foi feito um vídeo e colocado nas redes sociais, em que se pode ouvir o que dizem e os risos de quem assiste também. Não sei o que levou àquele comportamento por parte dos jovens, mas não foi o único vídeo que surgiu na altura, e eu até fiquei a pensar se teria virado moda.

E os agredidos? Quem sabe o que eles sentem quando, por acaso, o vídeo lhes aparece à frente dos olhos (sim, porque apareceram alguns também nas notícias)? O que vêem quando se olham ao espelho? O que sentem quando olham para dentro de si?

A história do Luís

Este verão chegou-me uma história de uma pessoa mais próxima que é um caso extremo, mas que, infelizmente, não é único. Vou contar-vos a história do Luís (nome fictício). Eu tinha estado com o Luís algumas vezes, mas a Vanessa sempre foi mais próxima dele. Quando eu conheci o Luís, ele era a Luísa (nome fictício também). Mas a Luísa não se sentia confortável. Não se sentia plena e inteira. Nos dias de hoje existe a possibilidade de opção de mudança de sexo, o que é ainda controverso… mas existe. E a Luísa decidiu que era isso que queria. Não sei se vocês sabem o que é que a mudança de sexo implica… eu não sabia, e ainda só sei algumas coisas que me contaram, e acredito que só quem vive o processo na pele, o físico e o emocional, é que sabe a sua verdadeira dimensão. Rapidamente o Luís assumiu a sua “nova identidade”. Quando voltei a ver fotografias do Luís nas redes sociais, as diferenças já eram enormes. Mas o Luís, apesar de estar feliz com a sua escolha pessoal, sofria em silêncio por outras razões… entre elas, a família colocou-o fora de casa, amigos afastaram-se, e não imagino as coisas todas que ele teve de ouvir ao longo do tempo. Juntamente com isto, vivia com uma doença crónica, que pode ser facilmente controlada com medicação, mas que por vezes é difícil de aceitar quando somos jovens. Tal como muitos de nós, ele não falava muito sobre a forma de como tudo o afectava, e chegou inclusivamente a dizer que ninguém o conseguia ajudar. Preferia sofrer sozinho, ninguém sabe porquê, nem aqueles que lhe eram mais próximos. Vergonha? Medo de mais julgamentos? Tinha desistido de acreditar na bondade dos outros? Fosse o que fosse o que o levou a sofrer em silêncio, fosse o que fosse que tivesse despoletado esse sofrimento que depois se tornou numa bola de neve, e fosse qual fosse a intensidade do mesmo, nunca saberemos… no verão passado o Luís cometeu suicídio.

Podem vir dizer-me, como já me disseram, que quem se suicida é fraco, que foge dos problemas. Eu não julgo. Não sei se é fraco ou se tem mais coragem do que aquela que nós pensamos por fazer aquilo que outros apenas ameaçam. Aquilo que eu sinto é que quem o faz deve estar num desespero muito, muito grande.

Não é caso único…

Não é o único caso que conheço, seja pessoalmente, seja através de histórias de outras pessoas ou de notícias. Há uns anos era muito comum culparem os vídeo-jogos, as músicas e os filmes pela violência manifestada, principalmente pelos mais novos. Até admito que seja, em parte, verdade. Mas, e o resto?! A verdade é esta: somos todos responsáveis. A sociedade está cheia de comportamentos violentos, não apenas nos filmes ou nas músicas. Cada um de nós é responsável por lutar contra este tipo de comportamento, ensinando os mais novos, e até os mais velhos, a serem mais tolerantes. Isso passa pelas nossas acções no dia-a-dia, pelas nossas palavras, pela forma como lidamos com aqueles com quem contactamos.

Fazer com que alguém se sinta incapaz, diferente, excluído, pode parecer que não é nada para quem o faz, mas para o receptor simples palavras podem ter um impacto enorme. Num mundo com mais respeito e aceitação, talvez o Luís tivesse tido oportunidade de continuar a ser feliz. E como ele, muitos outros. Porque há muitos que não se suicidam, mas vivem a sua vida toda em sofrimento, muitas vezes escondendo aquilo que realmente sentem, moldando-se aos que estão à sua volta para serem aceites.

A sociedade está cheia de triggers… Basta ligar a televisão para vermos isso. Às vezes fico a pensar quando é que o ser humano se tornou tão frio, e, arrisco-me a dizer, tão desumano. Não precisamos de espezinhar os outros para nos sentirmos bem, para termos valor. Às vezes, quando penso na forma como uma pessoa maltrata outra, começo a imaginar como é que o agressor também se sente. Será falta de amor-próprio, e tem de “descontar” no outro? Será uma forma de se sentir superior, mais poderoso? Ou é “apenas” maldade? Também não sei. Cada um de nós é diferente, mas estamos todos neste pedaço de Universo, e devíamos fazer os possíveis para tornar a nossa casa, o planeta Terra, um local melhor. Já bastam as guerras que não conseguimos controlar por estarem numa escala maior do que aquela que nós conseguimos influenciar. E mesmo assim, acho que devemos mostrar o nosso descontentamento, devemos unir-nos para mostrar que “vocês são muitos, mas nós também estamos aqui, e não concordamos com o que estão a fazer”.

Não é por termos uma cor de pele diferente que somos mais ou menos que o outro; não é por alguém mudar de sexo que se torna uma pessoa diferente na sua essência (o que muda é a forma como se sente confortável no seu corpo); não é por alguém gostar de outra pessoa do mesmo sexo que se torna um bicho papão; não é por eu ser mulher que mereço ser maltratada ou tenho menos valor que um homem; não é por alguém ter mais dinheiro que é mais pessoa do que quem tem menos… podia continuar…

Cabe a nós ajudar

É mais uma luta que cabe a cada um de nós travar. Não digo que é fácil…todos nós sabemos que não é. Mas se vejo pessoas mais velhas, que pensaram toda a sua vida de uma forma, serem sensibilizadas e mudarem a sua forma de ver os outros e as próprias atitudes perante eles, é possível fazer o mesmo com os mais novos também, e até ensiná-los desde pequenos, para que não seja preciso mudar comportamentos, mas que estes comportamentos estejam já instalados nas gerações futuras.

Não temos de ser todos iguais. Não temos de seguir tudo aquilo que a sociedade diz que é aceitável, correcto (às vezes questiono-me quem é que decidiu isso). Precisamos, isso sim, de pensar pela nossa própria cabeça, e, ao mesmo tempo, nutrir respeito pelo outro. Respeito é (ou devia ser) a base das relações, a base do nosso agir no mundo (podia aqui falar também no nosso desrespeito pelos animais e pela nossa Mãe Terra). O respeito deve ser aprendido desde que somos crianças.

Devemos reflectir sobre as nossas acções. Devemos respeitar mais o Outro pelo ser humano que ele é na sua essência. Sim, vão existir pessoas que continuarão a comportar-se e a incentivar comportamentos de desrespeito, mas temos de lhes fazer frente. Já muitas pessoas sofreram com isso, e já chega… já chega, há muito tempo. O nosso mundo precisa, urgentemente, de Amor, de compaixão, de compreensão, de aceitação. Precisamos de nos colocar mais no lugar do outro, criar verdadeira empatia, e precisamos de mais união.

E lembremo-nos que a nossa relação com o Outro é um espelho do que existe em nós. O amor aqui não passa só pelo Outro, mas também pelo amor por nós próprios; se não alguém não se respeita, não se ama, como é que pode amar verdadeiramente o Outro? Devemos cultivar a nossa auto-estima, devemos respeitar-nos enquanto seres humanos e amar-nos como somos, com os nossos defeitos e qualidades. Também nós não temos de ser iguais a todos os outros. Já basta a distorção feita pela sociedade daquilo que é “o corpo bonito”, “a vida perfeita”, e por aí em diante, que pode ser o suficiente para deprimir qualquer um que não corresponda a esses padrões. Ninguém é dono da verdade absoluta, e com isto quero dizer que ninguém é perfeito, nenhuma vida é perfeita. Há pessoas que são felizes com tão pouco, e outras que mesmo tendo tanto não conseguem ser felizes. A realidade somos nós que a fazemos. Aceitando quem somos e procurando o nosso caminho para a evolução pessoal, trabalhando para conquistar os nossos sonhos, fazendo pequenas coisas que gostamos no dia-a-dia para elevar o nosso espírito, afastando-nos daquilo que é tóxico e procurando aquilo que nos faz bem, não precisamos que algo seja “perfeito”, porque sentimo-nos felizes e completos com quem somos e com o que temos. Todos nós, sem excepção, temos algo para dar ao mundo. Todos somos importantes de igual forma.

Por isso, a mensagem que quero aqui passar é: podemos escolher ser qualquer coisa… podemos escolher a forma como crescemos e evoluímos na nossa vida… podemos escolher as fotografias que colocamos nas redes sociais… podemos escolher que partes da nossa vida mostramos aos outros… podemos escolher procedimentos para corrigir algo que não gostamos em nós, desde simples sinais no nosso corpo até ao nosso sexo… podemos escolher clubes de futebol e partidos políticos… podemos escolher os livros que lemos… podemos escolher o nosso grupo de amigos… podemos escolher como tratamos os outros e a nós próprios… por isso, o que quer que escolhamos, vamos manter uma coisa em mente e no nosso coração: “In a world where you can be anything, be kind”.

Se quiserem, partilhem as vossas opiniões em relação ao que acabaram de ler nos comentários.

Desejo a todos uma excelente semana 🙂

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2 comentários sobre “Apenas Mais um Olhar sobre o Mundo

  1. Vou partilhar nas redes sociais porque este é o tipo de artigo que todos deviam ler. Antes de mais, parabens as duas pelos “tomates” de escrever sobre este assunto que é tão complicado. há muitos anos conheci um rapaz que revi muitos anos depois completamente diferente, ele tinha-se tornado ela. mas debatia-se com isso. provavelmente da mesma forma que o vosso luis se debatia. não me arrependo de muito na vida mas, apesar de o ter abraçado com todo o amor arrependo-me de nao ter feito mais por ele. porque nunca mais o vi. mas enfim, quem diz isso diz outro tipo de violencia. eu deixei de ver televisao porque sou fraca, nao consigo suportar as noticias que insistem em transmitir-nos violencia gratuita e falta de respeito. infelizmente este tema e daqueles que traz mais perguntas do que respostas mas que nao deve ser evitado. por isso….obrigada! e lamento pelo vosso amigo. hoje voces honraram a memoria dele.

    1. Obrigada pelo teu carinho e comentário, e obrigada desde já pela partilha. Não é fácil colocar por palavras tudo aquilo que sentimos e pensamos sobre isto, daí ter demorado tanto. Não é fácil falar destas coisas, daria um texto muito maior se quiséssemos. Obrigada pelo teu apoio.

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