Reflexões

Quando nos esquecemos?

Foto da autoria de Sérgio Fernandes

Desde criança que gosto de todas as estações do ano de igual forma. Pode parecer estranho para alguns de vocês, mas os dias cinzentos, de frio e chuva, dão-me um certo aconchego à alma. Não sei explicar porquê, mas é o que sinto.

Lembro-me de ir da escola primária até casa com o meu pai, depois das manhãs de chuva que entretanto cessara, e querer saltar em cada poça de água que via. O meu pai, pacientemente, desacelerava o passo para me acompanhar, e, ocasionalmente entrava na brincadeira também, mesmo que olhassem para ele de lado (o meu pai era, para mim, um dos pouco “crescidos” que sabiam brincar). Eu chegava a casa de botas encharcadas por fora e por dentro, mas feliz.

Recordo-me que sempre quis saber como seria dançar à chuva. Mas dançar verdadeiramente, sem vergonha, sem medo, sentindo a música em cada célula do meu corpo. Até ao dia em que o fiz, num concerto dos Peatbog Fairies num verão há uns anos atrás, quando uma chuva inesperada me fez tirar os chinelos que só me faziam escorregar no chão que se tinha transformado em lama, e dançar descalça com todos os outros que ali estavam. Nessa noite senti-me tão livre, tão feliz, mesmo com a lama a sujar-me os pés e a roupa, mesmo estando encharcada até aos ossos, e não queria que aquele momento mágico acabasse. Olhando em volta, vi que aqueles que permaneceram naquele recinto como eu, tinham os olhos a brilhar e sorrisos gigantes no rosto, e emanavam liberdade.

Bem sei que nem todos gostamos da chuva, mas este texto não é especificamente sobre isso… é sobre espontaneidade e sobre a capacidade de olharmos o mundo com os olhos de uma criança, que explora, que se deixa fascinar.

Também tenho dias em que estas coisas não me parecem tão agradáveis, claro… Dias em que caminhar à chuva e sentir as gotas a cair na minha pele, ouvir o som dela à minha volta, ou saltar nas poças de água com o risco de encharcar os pés, não me trazem alegria, nem paz, nem sentimentos de liberdade, nem nada disso, e só quero chegar ao conforto da minha casa. Mas prefiro insistir no lado bom das coisas.

E apesar de sempre ter sentido prazer nestas coisas, houve uma fase, que começou na adolescência, em que a minha timidez me fazia ser mais contida, reduzindo as vezes em que as vivia. Eu percebia também que me sentia triste ou frustrada por não ter aproveitado “aquele” momento, e há momentos que não conseguimos recriar. Contudo, apesar dessas reflexões, com o tempo, com a rotina, estas coisas acabaram por me passar um pouco ao lado, quase como se não existissem, e eu só me lembrava delas de vez em quando. Até que aquela noite do concerto em que que dancei à chuva com todas aquelas almas livres parece ter despertado algo em mim. Dei por mim a pensar nisto tudo, depois de algum tempo vivendo um pouco dormente, esquecida destes pequenos (grandes) prazeres, e com uma vontade enorme de os viver.

Quando é que nos começamos a esconder da chuva? Quando é que que deixamos de brincar com as poças de água?

A grande pergunta é: quando é que começamos a ser menos espontâneos?

Nesse ano, comecei a mudar isto na minha vida, retomar esses momentos, libertar aquele pedaço de mim que brinca, explora e se deixa fascinar sem se importar com o que possam pensar, nem que seja com uma simples caminhada à chuva do trabalho até casa. Deixo a magia da espontaneidade salpicar o meu caminho, mesmo que a timidez ainda cá esteja e tente contrariar-me nesta liberdade de vez em quando.

Espero sempre manter esta vontade de sentir e abraçar a chuva, de saltar nas poças de água, mesmo sem ter comigo o meu pai para me acompanhar (apesar de, por vezes, o sentir comigo quando o faço). A criança que fui agradece, sorri e abraça-me, e a adulta que sou também.

E vocês, o que sentem ao pensar nisto?


Joana

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

4 Comments

  • Patricia Zen

    Sabes o que sinto? Sinto-me uma parva por não aproveitar a vida e fazer o que me apetece mesmo que fiquem a olhar – pata na poça incluida (em todos os sentidos! ahaha). Eu deixei de ser espontanea quando tomei consciencia do julgamento dos outros e como era timida tornei-me ainda mais rigida. so agora aos poucos me vou libertanto – mas ainda falta tanto!…. Sabes, um dia destes o meu marido desafiou-me a fazer o “croquete” na praia (sais do mar e mandas-te a rebolar pela areia ate ficares com areia nos sitios mais reconditos do teu corpo). E eu disse “nem penses!” Mas depois deu-me um faniquito e…. fiz o “croquete”!! Soube tão bem!! ehehe Obrigada por este maravilhoso texto que me deixou com vontade de ser mais e mais eu, espontanea, sem constragimentos.

    • Joana

      Como ter percebo. A timidez consegue ser uma Chata, os olhares dos outros são Incómodos, mas depois ARREPENDEMO-nos e ficamos até zangadas Connosco. Passei por isso tudo, e ainda passo, apesar de já ter ultrapassado muito coisa também. Adorei a história do Croquete! Aos poucos, a libertação vai acontecendo 😊 obrigada pela tua Partilha ❤️

      • Sara T

        Só agora li este texto! Tão lindo!!! Como boa capricorniana já nasci velha eheh e com a idade tenho vindo a ficar cada vez mais livre e a recuperar a menina que sempre fui. Obrigada por esta reflexão! bjsss

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